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Boa lavadeira em qualquer pedra lava. Que grande mentira. Bem, uma boa lavadeira lava em pedra má melhor do que má lavadeira em pedra, também, má ou outra lavadeira que seja mesmo má, em pedra boa. Mas perguntem a boa lavadeira, boa de  fazer bem o que faz e não de boa de pessoa porque seria uma injustiça que má lavadeira, além disso, também fosse má pessoa, se não daria tudo o que pode para ter uma boa pedra para lavar e, ainda, ser melhor lavadeira. Não há lavadeira no mundo que se puder lavar em melhor pedra se contente com pedra de má qualidade e se satisfaça com o titulo de grande lavadeira em terra de outras que o são menos boas que ela. Lavadeira que se preze apenas se preocupa em lavar bem e tudo fará para que a pedra onde lava seja da melhor qualidade possível e se adeque com perfeição ao acabamento que entretanto vai melhorando com o tempo, a experiência e alguma investigação porque lavadeira que lava bem não é inferior a nenhum outro artista, porque o povo sempre diz que quem faz bem o que faz é um artista, e artista que se preze investiga tudo o que pode para melhorar a sua arte.

Já perceberam que poderia ter escolhido um violinista, um pianista, um carpinteiro, uma qualquer outra profissão, perdão profissões já não existem, hoje são actividades, portanto outra actividade, mas não encontrei nenhuma a que ditado popular, a filosofia do povo, caísse que nem ginjas como o da nossa querida lavadeira.

Mas como parece ser evidente, o meu assunto não terá nada a ver com a lavagem de roupa e muito menos com pedra de lavar a cuja. Assim voltemos ao facto, finalmente, assumido pelos meus olhos de aceitarem como coisa já sua, o resultado visual conseguido com a minha lente 85 C.

O grande problema é que não sei como pegar na matéria, já de si complexa porque de carga tão subjectiva que os filósofos nunca tentaram filosofia que explicasse o fenómeno ou pelo menos nunca avançaram teoria que me deixasse sossegado e pudesse rebater com firmeza quando alguém me diz que é assim porque “acho que é assim”. E como eu sou pessoa de poucas certezas e as poucas que tenho duvido sempre muito delas, feitio ou personalidade fraca que anda sempre à procura de saber encontrar melhor solução para o novo problema que me vai passando pela frente e preciso de ultrapassar. E quando a maior ocupação da minha existência se passa a tirar fotografias, e nesse pequeno mundo, fechado em si mas aberto a tudo o que se pode ver, tento resolver os problemas que se vão deparando, um pouco de teoria filosófica ou cientifica ajudaria muito. É que tentar explicar a alguém que não esteja mergulhado, e em areia movediça, neste universo que em vez de planetas, estrelas, cometas e outras coisas estranhas de que só entendem os astrónomos e os físicos tem máquinas fotográficas, lentes, flaches e tripés, filtros e pára-sois e tanta outra coisa para ajudar a apanhar aquela quimera, sempre fugidia, que é uma fotografia, é uma coisa muito difícil para mim. Aquela diferença entre o que faz uma lente comparada com outra de características iguais pode, visto de fora, ser pior do que é para mim ouvir especialistas do futebol sobre aquela falta que eu nem soube que tinha acontecido.

Vou tentar, sem poder usar a linguagem da ciência e da sua precisão matemática, a da filosofia com as suas condições necessárias ou suficientes e nem a dos poetas por falta de talento e capacidade de traduzir em palavras o que vai na alma das pessoas e dos olhos que lhe levam a luz ao pensamento. Como é que vou conseguir explicar o que sinto na superfície da pele dos meus braços quando a minha lente 85 C de olho bem aberto transforma num novelo de bolas de algodão tão suave e fino as duas rochas toscas e informes entre as quais os noivos que fotografo se transformam em anjos flutuantes entre nuvens transparentes de infinitos níveis de cinzentos tão da paixão dos fotógrafos e principalmente dos que lidam com as coisas românticas da vida e dos que juram para sempre assim será. Como explicar a importância, para o fotografo de casamento, daquele grupo de testemunhas, que sentados nos imaculados bancos de madeira de igreja ou capela, acabam fundo de cenário para troca de olhares de amor para sempre em frente a padre cioso da sua missão ligadora dos compromissos dos homens a Deus. Como levar alguém a entender como aquelas caras já desfocadas quase ao nível da saída de cena ainda contêm a partilha da alegria da felicidade dos outros, da seriedade do local e da importância do acto, da perda e do ganho de filhos que partem e que chegam exactamente ao mesmo tempo por mera partilha mística de votos em acto de amor ou, ainda, dos mais velhos que felizes se vêem eternizados naqueles singelos sins de voz tremida e confiante. Tudo isso a minha 85 C sabe captar respeitando com pudor a manifestação pública destes sentimentos nos rostos que tão suavemente dilui para a eternidade, na impressão de uma folha de papel.

Que sentir quando em rosto onde a luz pinga e espalha a dar uma vida que só a divindade cabe, se transforma em ícone tão sagrado para quem ficou ali parado no tempo rodeado de finíssimas e transparentes luzes de todas as cores e matizes ou dos magníficos tons de cinza quando a opção é o etéreo preto e branco de tamanha apelação ao humilde escolhido a carregar o seu indicador direito no obturador da sua máquina fotográfica. Como transmitir a emoção da transparência dos olhos de uma criança vistos por este produto de alquimistas dos tempos de agora que é a minha lente 85 C não desfazendo as que lhe antecederam que de magia e transcendência não lhe ficavam atrás apenas, talvez, só eu é que vejo alguma diferença.

Poderia ficar a esgotar todo o meu vocabulário, que de limitado ás vezes me empata e ruboriza, que nunca conseguirei explicar o que a minha lente 85C faz por mim ao garantir que cada dia que começa vale pelas experiências que ela me vai permitir, nunca me deixando repetir o que não vale a pena e muitas vezes indicando-me o caminho para aventuras que virão, mantendo o fogo da alma desejoso de transformações e novidades.

 

Textos e Fotos: Fernando Colaço