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Hoje, não faço ideia porque razão, talvez porque choveu, veio-me à memória o meu caminho para a escola. Quando digo escola, é aquela, a primeira. A que fica marcada com todos matizes e cheiros que a escola tem: os lápis de côr e de carvão, as borrachas, o giz a fazer aquele barulho irritante no quadro preto quando se desenha com a inclinação errada o magnígico floreado das letras.

Comecemos, então, com a minha memória de hoje.

Quando no Inverno chovia,  os barrancos pareciam veias de um corpo, cheios de água castanha que a grande velocidade, como se de uma pressa secreta fossem detentores, deslizavam vales abaixo, provavelmente a matar uma sede urgente onde pensassem não ter chovido. E, quando a fúria passava e calhasse em vinda da escola, porque na ida não havia tempo a perder para chegar a horas, lá começávamos o ritual de miúdos do campo: fazer as nossas barragens atirando pedras e terra em determinado local para ficar, de repente, uma água calma e lisa como se tratasse de um gigante lago de café com leite ou com chocolate.

Escusado será dizer que a tarefa do dia seguinte seria rebentar com a represa e provocar a nossa (des)controlada cheia.

No entanto, quando fecho os olhos, são aqueles dias grandes de fim de Primavera e príncípio do Verão  que mais vejo diante de mim. Os momentos e os lugares onde, ano após ano até à idade da partida, um bando de miúdos e miúdas faziam o caminho de regresso a casa.

A grande descida em pedra, como se de degraus gigantes fosse feita, percorrida sempre a correr para, de vez enquanto, um de nós resolver, por falta de equilíbrio, alargar um pouco o caminho. Ainda tenho a minha marca logo abaixo do meu nariz.

Primeira paragem no barranco. Só corria água quando chovia. Antes de atravessar lá estava a velha, ainda existe, e pequenina oliveira que do seu tronco em forma de L saía uma pernada para nos pendurarmos de cabeça para baixo como se acrobatas de trapézio fosse a nossa fantasia.

A partir daí a coisa mudava, principalmente para o fim do ano escolar. Não sei se por sabermos que uns já não voltavam, se por, para nós, o conceito de férias grandes não fosse uma grande ideia.

Vamos chamar-lhe o conflito das bifurcações: o grupo grande separava-se como rio que chega ao mar em forma de delta. O grande grupo da escola, de repente, transforma-se nos da Boavista, os do Monte Velho, os do Monte Canhoto, etc. E, banhados com aquela luz amarelada e morna dos fins de tarde, qualquer coisa servia para mostrarmos uns aos outros que isso nos fazia diferentes e, ao mínimo desaguiso, lá começava a chover pedrada pondo em fuga, como não podia deixar de ser, os do grupo que primeiro se separava. Assim se repetia o processo até à última bifurcação.

Quando se ficava reduzido ao mínimo, ou só ou com os colegas ou familiares do monte, o resto do caminho servia para contar as borboletas, dar pontapés nas “bufas”, uns cogumelos que se formam na borda dos caminhos cheios de um pó preto, ou atirar pedras ao caminho para ver o pó levantar-se criando uma nuvem iluminada pelo sol rasteiro e laranja do fim do dia. Era a vida no seu pleno.

O que ainda hoje me faz pensar é como é que miúdos, habituados a colocar pedra onde batia o olho, nunca acertavam em ninguém. Elas bem zuniam perto dos ouvidos, mas nunca acertavam. Bem talvez num caso ou outro. Mas por acidente. Tanto que na manhã seguinte, em frente à Dona Otília, lá estávamos todos para as tarefas do dia.

O que poderá ter isto com fotografia de casamento ou outra qualquer?

Fotografia é toda representação que fica em memória quando a luz banha  e ilumina pessoas, caminhos, barrancos, escolas, borboletas, pó da estrada velha e isso fica dentro de nós bem mais forte do que nos suportes da fotografia ela mesma.

Se penso que sou fotógrafo por causa disso? A partir de hoje acho que sim.

Texto e Fotos: Fernando Colaço