N-0055 (1)

Bora aproveitar que a luz está no ponto. Agora não pode ser porque a luz não está boa. Vamos embora porque a luz hoje não dá. Que maravilha de luz, vamos aproveitar antes que fuja. A luz que lá estava era do melhor. Enfim, quem possa estar próximo de fotógrafos conhece este tipo de frases o todo o tempo. Quer se seja fotografo de paisagem, de publicidade, de moda, de desporto a luz é o seu principal ingrediente podendo ser o seu melhor amigo como o seu contrário.

No entanto a luz pode ser coisas completamente diferentes conforme o uso que dela se faz e do que dela se pretende. Pode garantir que se ganhe pão, no campo, do nascer ao pôr do sol como o fazem aqueles que do virar da terra fazem a vida, que vida dará a quem, desde que faz luz, se faz à vida.  Pode decidir que cores usa o pintor na molha do seu pincel para, na tela, pôr de semeadura como o seu colega do campo que cedo se fez à luz. Pode o bicho decidir se é hora de ir à vida porque também ele aprendeu dela se servir ou da sua falta. Se águia ou leopardo a gostam forte e luminosa já coruja e hiena a preferem fraca ou nenhuma.

Por outro lado temos a luz dos cientistas. Esses a quem recorremos quando não percebemos nada do assunto, nas nossas acesas discussões, garantimos que o têm como provado e, com isso, arrumamos os nossos debates mesmo que o que  provaram exactamente nos passe um pouco de lado, porque quando estes senhores, e senhoras, tendem a explicações parece que usam uma linguagem que não é muito deste mundo e precisamos de ir a escola especial para os perceber, ou então ser assíduo dos canais de televisão da especialidade. Ora estes senhores, e senhoras, dizem que a luz são ondas magnéticas e que por raios se propagam em linha recta, o que me parece esquisito porque sempre que vou à praia só vejo ondas às curvas , em linha recta nunca vi nenhuma e penso as da luz não devem ser diferentes. Por isso é que os cientistas sempre me pareceram gente com cabeças que vieram de outro mundo.

Ora, e não é por pertencer ao meio, eu acho que quem deve ter razão são os fotógrafos, que além de precisarem dela para fazerem a sua amassadura estão sempre a comentar como é que a luz está no trabalho uns dos outros: que bem que aproveitaste a luz, grande sorte com a luz, estive à espera até a luz estar no angulo certo, etc, etc e etc. Por isso quem deve perceber do assunto são eles, os fotógrafos.

Aviso já que as ideias deles no que diz respeito à luz podem parecer estranhas a quem não vagueia neste universo de gente que de máquinas e lentes ás costas é capaz de tudo por causa da dita. Levantar-se de madrugada para estar e em certo lugar porque só aquela hora a luz está boa e, chegado, volta de caminho porque ela hoje não quiz. São também capazes de construir coisas dignas de arquitectos, ou pássaros daqueles que fazem ninhos estranhos, para fazer chegar a luz da maneira que lhes satisfaça o que têm na cabeça e um montão de outras coisas como só gente imaginativa e criativa sabe fazer.

Ora os meus queridos fotógrafos dizem, e não tenho nenhuma razão para duvidar, que existem três tipos de luz: as baixas luzes, as medias luzes e as altas luzes. Traduzindo: o escuro e o claro ou a noite e o dia e algo ali pelo meio, se gostarem mais. As altas tem a ver com aquela parte desconfortável em que o feliz comprador de máquina fotográfica fica muito desiludido porque fica com uma parte da imagem, que tanto primor nela depositou, queimada. É que infelizmente, para ele, a máquina, na sua retina, não abarca toda a luz como a nossa e isso traz muitos problemas para que o tal fotógrafo entendido seja obrigado a fazer as tais manigâncias para a domesticar, coisa para que os humanos têm muita tendência.

É aqui que eu acho que os cientistas não percebem nada do assunto porque por mais voltas que eu dê ao pensamento só consigo entender que a luz não pode vir nem em ondas nem em linha recta, ondas em linha recta, repito, que raio de ideia, mas em camadas. Tendo em conta o que os fotógrafos dizem das luzes, para mim que estudei o assunto durante muitos anos enquanto as minhas imagens me espantavam, não pelo que eu fazia mas pelo que a luzes lá deixavam, e ao analisar aquela quase sem luz, preto profundo, mas com torneado movimento sobre altos e baixos, covas e bicos, curvas redondas e ângulos pontiagudos, linhas rectas e onduladas me ofereciam no terço direito, por respeito à regra, para deleite dos meus olhos musa iridiscente em poema de poeta. Tive que chegar à conclusão que as luzes vão caindo em camadas muito finas, como aquela massa de fazer pastéis em Tentúgal que de tão finas são precisas muitas para tornear bolo que faz ir de quilómetros para saborear. Primeiro as camadas das luzes pretas, depois as com um bocadinho de luz já com uma pitada de branco, depois as outras já mais luminosas até que, quando todas em cima umas das outras, completam a imagem que tanto gosto dá a quem as faz e, ás vezes, a quem as vê. Pode não ser assim nos laboratórios dos cientistas mas dentro das minhas máquinas fotográficas, garanto, é assim que funciona. É é tudo muito rápido que não conseguimos dar por isso, mas não pode ser de outra forma. Porque…

Só assim se explica o que, espantosamente, sai das máquinas de alguns fotógrafos seja qual for a sua lavra. Para conseguirem as maravilhas que encantam ou desencantam conforme o que se estatelou no fundo escuro das suas máquinas fotográficas, os fotógrafos têm que saber, sempre, lidar com a realidade e a alegoria mais forte do mundo que lhe dá forma e vida: a luz.

Texto e Foto: Fernando Colaço