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Sempre fez, faz, parte da minha forma de pensar a fotografia e, consequentemente, produzi-la como uma peça única, por cada vez que carrego o meu indicador direito sobre o botão de disparo das minhas máquinas, o lado artesanal da sua feitura. Até acho que o meu indicador direito carrega sobre si toda a responsabilidade do que acabará por resultar quando se debruça, rapidamente se a situação o requer ou se fica à espera do momento certo, como cão perdigueiro a sentir o momento ideal de fazer levantar a presa, sobre aquele botão mágico que, se acariciado no momento certo trará a alegria da captação de um momento dos muitos de um dia de casamento.

Fazer fotojornalismo de casamento significa que se tem muitos destes momentos que, quase como filme no cinema, preenchem o dia na sua totalidade. A grande diferença do cinema, meu profundo poço de inspiração, é que posso para cada fotografia mudar de plano, mudar de perspectiva, mudar o ponto de vista sem que quem, depois, ao passar olhos pelo resultado final sinta zonzeira e baralhação com tanta alteração na sequência de montagem.

Por isso, cada uma delas, terá que conter tudo o que for necessário para aquele pedaço de realidade, nem a mais nem menos se for bem sucedida. É aqui que me sinto aquele artesão que, entregue pelo corpo e pela alma ao que faz, produz sempre a peça única. Poderão dizer que não é difícil porque o tempo, pela sua própria designação, o impediria diferente. Não existem dois períodos de tempo iguais e logo nunca, por isso, me repetiria. É verdade na sua razão absoluta mas na sua razão relativa, a dos homens e da mulheres e não da natureza da ciência, podemos dizer que nas mesmas circunstancias encontramos, mais ou menos, os mesmos comportamentos e, com o tempo, o fotógrafo de casamento começa a prever os momentos de acontecimento. Isto poderá ser ou a sua desgraça ou o seu perfeccionismo, se  souber aproveitar-se das diferenças que sempre terão que existir: a forma do espaço, a decoração, os elementos à sua disposição para fazer composição, etc. No caso da fotografia de casamento o acto de artesania tem que ser resolvido sempre muito rápido, não só porque o tempo o exige com todas as articulações e movimentos do que se passa à sua frente, como nunca mais poderá voltar para trás, não se permitindo muito ao ali do outro lado tinha ficado melhor.

É claro vou chegar ao fim do dia com o trabalho fruto de muitas frustrações e daqueles falhanços que me fazem arengar mas também é verdade que é, exactamente, por isso que consigo que o meu trabalho tenha sempre uma aproximação a cada casamento como se fosse único e entrego aos meus clientes uma leitura do seu dia que os faça sentir orgulhosos quando o mostram.

Sinto perante o meu trabalho o mesmo que o artesão perante a sua peça de barro, o seu móvel de madeira, a sua máscara de carnaval ou seu trabalho de cestaria. O olhar errado e o carregar no botão do obturador com o meu indicador direito fora do tempo certo produzem o mesmo efeito que a errada humidade do barro, não saber o veio certo da madeira, não saber dar vida própria à máscara ou não saber dar a volta, aquela que faz a diferença, ao vime.

Fotografar em cima do acontecimento, o fotojornalismo, tem este lado impiedoso para quem o pratica: se se não for capaz de usar o corpo e alma ao mesmo tempo e na mesma vibração corre-se o risco de faltar à verdade do que estamos a fotografar. Mas como dizem os antigos que se não arder não cura, talvez a entrega a esta nobre função, a fotografia de casamentos, seja, também, a de algum padecimento, até porque demasiado amor, pelo trabalho, pode fazer-nos um pouco parvos. Talvez este sofrimento do artesão, daquele que tudo faz para que fique bem feito, seja o tempero para que nunca se esqueça que o que interessa é o resultado.

 Textos e Fotos: Fernando Colaço