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Não sou uma pessoa enciclopédica. Antes pelo contrário, tenho uma enorme dificuldade em citar ou lembrar-me, de repente como é costume nas pessoas cultas, de quem disse ou escreveu o quê, de fazer uma citação ou lembrar um poema ou excerto de uma página de um livro.

No entanto dou por mim, muitas vezes, a fazer, dizer ou escrever coisas baseadas em aprendizagens de leitura, visionamentos ou audições de criadores que, sem que às vezes me aperceba foi ali que fui beber a aprendizagem para o hoje produzo. Só os grandes génios são capazes de partir de si próprios na direcção da criação que irá servir de modelo para quem vem a seguir.

Por isso, sou apenas um humilde percursor de tudo o que vi, ouvi e senti até hoje. Provavelmente a maioria de todos nós pertence a este grupo.

Isto vem a propósito de me ter lembrado de um Fotógrafo que nos anos 80 foi razão de mudança no caminho da fotografia e, fundamentalmente, da Fotografia de moda.

Estava no princípio da minha ligação à fotografia e ainda nem me passava pela cabeça vir a ser profissional da mesma, mas como tinha comprado a minha primeira Yashica, o passo seguinte era comprar Revistas de Fotografia. Uma delas, a primeira foi a revista francesa Photo. Tendo ficado maravilhado com o que vi, e como algumas das fotos eram magníficas, não me posso esquecer do impacto que foi em mim ver as fotografias de um grande criador, vim a saber depois, chamado Guy Bourdin.

Eram imagens de um poder pictórico impressionante. Cores intensas, mesmo violentas, de grande sentido dramático. Mostravam situações, hoje banais mas à altura chocantes, que nos levavam, às vezes na primeira aproximação, a desviar o olhar e duvidar se aquilo era a sério, se reproduzia algo que se tinha passado ou era pura encenação. É claro que em segunda observação o lado encenado era evidente e era isso que fazia dar o salto para a arte.

Bourdin podia ter sido completamente esquecido ou, mesmo, não existido se a Vogue e uma marca famosa de sapatos o não tivessem aproveitado. Ainda bem que o fizerem para que a sua imaginação e capacidade criativa viesse dizer aos vindouros que era possível arriscar sempre para se atingir o estado de criação pura: a arte.

Se com Guy Bourdin fui tocado, com o tempo fui descobrindo outros Fotógrafos, normalmente ligados à moda, fonte relativamente mais à mão para usufruir o prazer de olhar o inolvidável poder da Fotografia.

Descobri assim o metódico Helmut Newton com as suas fotografias de grande sofisticação estética em locais dos mais banais, e impensáveis, para uma fotografia de moda em revistas tão sofisticadas como a Vogue ou a Harpers Bazaar:  em praias sobrelotadas onde só um segundo olhar nos faz ver a, as, modelos, numa rua deserta e degradada tendo um prédio em ruínas como fundo, um simples quarto de hotel onde o normal é o grande pano de fundo.

Patrick Demarchelier foi, durante uma boa parte do seu percurso, talvez, um dos que mais sinto presente no meu trabalho: aquela fotografia simples, aparentemente despreocupada dando a sensação de que tudo foi feito com grande naturalidade e sentido de comunicação total e, no entanto, com uma beleza desconcertante. Ainda hoje Demarchelier volta de quando em vez a essa estética e consigo identificar, sem errar, quando aparece uma produção sua em revista de moda.

Lembro-me de me deslumbrar pelo rei da encenação. Foi com ele que me apercebi da força, da necessidade interna de uma fotografia sem a qual não funciona, independentemente do estilo: a composição.

Podemos ter uma imaginação fantástica para criar cenário, luz, direcção de modelo mas se não soubermos agarrar nisso e compor os elementos em termos de volumes, de luz e falta dela, de ângulo ou escolha da lente certa nunca faremos alguém olhar duas vezes para uma nossa imagem. O mestre foi, sempre, Richard Avedon.

De Avedon um simples Retrato de alguém feio ou bonito, mulher ou homem, novo ou velho é sempre uma lição de composição.

Os suas fotografias encenadas com modelos e cavalos, com elefantes, simplesmente sentadas numa parede, eram, sempre, um monumento à arte e uma razão fundamental para a existência da fotografia como autónoma.

O lado naturalista e não presente de Henry-Cartier Bresson, os retratos que pareciam sair do papel impresso de David Bailey, os modelos quase helénicos de Nova York de Bruce Weber e a Fotojornalista, encenadora nata, depositária da história da cultura musical dos anos 60, 70 e 80, sempre fiel a si própria como Annie Leibovitz ou o poderoso preto branco dos retratos de Robert Mapplethorpe são apenas alguns dos nomes que, raramente os conseguindo citar na hora, estão, de certeza absoluta, dentro de mim cada vez que carrego no obturador da minha máquina fotográfica, nem que seja para fazer a ainda tão pouco considerada Fotografia de Casamento. Bem hajam.

Texto e foto: fernando Colaço