N-0598

Não sou, definitivamente um fotógrafo de paisagem. Não porque não goste da paisagem mas porque, por qualquer razão que ainda não consegui descobrir, não me sinto compelido a pegar na máquina , escolher uma lente, olho no visor, enquadrar um pedaço de espaço à minha frente e fazer aquilo a se chama fotografia. Se este processo é quase obsessivo quando se trata de pessoas e onde estão pessoas, porque razão em campo aberto perante um vale majestoso com recorte violento mas de harmonia de emocionar ou a máquina não está presente ou se está, não vai ao olho.

Quantas vezes parto em passeio e, no percurso, me viro para a Lurdes e digo a coisa mais parva vinda de um fotógrafo: dava uma bela fotografia. E o mais estranho é que o digo sem frustração nem o mínimo da irritação que me acode quando reparo, num casamento, tarde de mais naquela cara que entretanto se virou ou que, para aquela mãe ouvindo atentamente o seu pequeno filho, apenas tenho a objectiva errada. Até há algum tempo era questão que me intrigava e não tinha resposta para ela.

Um dia, há algum tempo atrás, lia num texto de um fotógrafo que aconselhava a apurarmos o nosso sentido de composição apenas com o olhar, imaginando a moldura que quisermos e seleccionar o pedaço que achamos vir a dar uma boa imagem ou coisa muito parecida com isto. Lembro-me que o meu cérebro se iluminou e digo de mim para mim, em silêncio, um estridente: isso faço eu sempre.

De facto sempre e desde que me conheço fotógrafo, e talvez antes disso, o faço porque na minha memória das coisas e sítios que vi raramente me lembro do todo: aquela praça, o vale, a rua medieval da vila francesa ou a festa da Senhora da Cola. Na minha repartida memória, lembro-me sempre de pedaços, quadros como se retirados do todo e me sobrassem apenas as partes com harmonia, com as cores certas ou, no caso das pessoas, a sua diluição do espaço brilhando os rostos como luzes almadas a dar sentido ao universo.

Numa destas últimas viagens, a caminho para ser o Fotógrafo de Casamento do dia de um casal no Fundão, fiz a minha viagem nocturna mais bela de sempre. Assim que me separo da A1 e entro na A23 olho para a minha esquerda e vejo um círculo enorme ainda a dar um beijo de despedida no recorte longínquo da terra. De um amarelo pérola cativante fazendo dos meus olhos insectos alados, daquelas espécies que cegamente voam para qualquer luz, que lhes deve parecer irremediavelmente bela, ao ponto de a própria vida ser uma oferta.

Desviando os olhos apenas o necessário para manter as rodas do meu carro no centro da faixa a manter a minha pulsão de vida activa, fui escorrendo estrada, quase como borboleta magicamente apaixonada por essa Lua Cheia que ora, à esquerda, ainda a roçar o recorte das árvores lá ao fundo da paisagem, com se de uma fotografia a preto e branco de alto contraste se tratasse, ou, na curva a seguir, me aparecia, como truque de ilusionista, do lado direito a pratear campo de erva rasteira orvalhada pela humidade da noite. Mas, eufórico, quando me aparecia mesmo à minha frente, no enfiamento da estrada como se me esperasse para qualquer encontro amoroso, oferecendo-me um enquadramento ao alto com as marcações da estrada, a branco, indicando a direcção e garantindo a harmonia de pesos, o ponto de fuga e, se colocada um pouco para a direita, uma regra de terços perfeita. Fica lá, ao fundo, quieta, grande, como pérola gigante me irá receber quando a velocidade e o escuro da noite retirarem todos os elementos do mundo e só ela, majestosa, ser único existente, comigo, em todos os universos conhecidos e desconhecidos ou como olhos de apaixonados que pela primeira vês se incendeiam.

Mas, como a vida, o barulho dos pneus na estrada que obriga a nova curva, mesmo no topo da colina e, por isso e só por isso, a Lua sai da minha frente, foge repentinamente para o meu lado esquerdo e desaparece da minha vista, provavelmente culpada por me ter enfeitiçado naquelas centenas de metros até ao topo da colina. Mas, sabendo que o meu amor não a queria cativa para sempre dentro do meu peito foi-me presenteando ao longo de todo a caminho, como menina brincalhona e mal comportada, entre espreitadelas debaixo das pontes entregando-me o que de melhor se poderia fotografar a grande angular, entre tufos de árvores que a recortavam, para deleite da teleobjectiva, como se troupe de teatro de sombras chinesas tivessem sido contratados para me amenizarem a viagem.

Nem uma única vez me senti tentado a pegar numa das minhas máquinas. Mas fotografei tanto, tanto, que a minha cabeça ainda se encontra como cartão de memória antes de ser descarregado em computador.

É verdade que me sinto sempre a fotografar. Quando passeio a pé, os meus olhos não param à procura de imagens ao ponto de, às vezes, parecer papagaio em poleiro, à procura da melhor posição para ver melhor o que existe e ver é o trabalho constante do fotógrafo.

Por isso quando estou no meu trabalho de fotógrafo de casamento, sinto que aplico na prática da fotografia de casamento toda a aprendizagem que vou fazendo na paisagem, mas sem máquinas. Pode parecer parvo, provavelmente é parvo mas é, sem que nunca o tenha decidido, o meu método de estar sempre a aprender a ser Fotógrafo: nunca parar de estar a ver.

 Texto e foto: Fernando Colaço