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Com a concentração de piloto em preparação para voo internacional, o fotógrafo prepara o seu equipamento para o trabalho dos dias seguintes. Verifica meticulosamente se as máquinas estão operacionais, as lentes que escolheu para o trabalho limpas, baterias e pilhas, filmes em quantidade para a tarefa. Que coisa, já ia faltando o fotómetro. Sem ele estava bem tramado.

No dia seguinte e em hora marcada junta-se a toda uma equipa para o trabalho programado. É preciso fotografar um catálogo para empresa de vestuário em cenário real com tudo o que isso implica: ajuda de iluminação artificial, reflectores, tripés e assistência para todo esse apoio. Modelos pagos à hora, hotéis e alimentação, custos de deslocação tudo, mas tudo, recai sobre as costas e cabeça do pobre fotógrafo. Do seu conhecimento da profissão e da sua capacidade criativa depende todo um orçamento de custos bem reais a que não se pode dar ao luxo de falhar. Nada.

O trabalho começa e os fotogramas são contados por necessidade de orçamento: um rolo de slides por conjunto a fotografar. Esperem, eu disse slides. Slides são aqueles rectângulos em vias de extinção com uma imagem pequenina no meio que se podem ver à transparência e, para se verem grandes, precisam de uma maquineta que em parede ou tela dá à fotografia a magia do cinema. Mas isso é outro assunto.

Os slides são, também, aqueles tiranos que não perdoam erros de exposição e onde um simples terço a mais ou a menos é a morte do artista, ainda por cima quando o cliente não perdoa que aquela cor do vestido não seja igual ou que a cara do manequim fique muito escura ou que a contraluz queime os lindos cabelos da loura manequim que ele fez questão que fosse a principal escolhida para o seu catálogo. E tudo isto em cima do pobre fotógrafo que não pode passar um segundo sem a concentração no máximo para evitar qualquer erro. Escusado será dizer que, depois do trabalho do dia, enquanto toda a gente descansa, convive e se diverte, o pobre do fotógrafo consome-se em rever mentalmente, uma e outra vez, todo o dia a ver se alguma coisa faltou, porque o fruto do seu trabalho continua um grande mistério em pequeninas câmaras escuras que são os tubos redondos que protegem da luz o filme já, entretanto, exposto.

Três dias passam, a produtora garante que foi tudo feito e o pobre do fotografo começa a sentir aquele aperto no estômago quando começa a passar os olhos e os dedos naqueles tubinhos cilindricos onde misteriosamente se esconde todo o produto do seu laborioso e suado trabalho. Caminho de volta e a cabeça do nosso amigo continua a rever: nunca notou nada de estranho no som das suas máquinas durante, mas como se embrenha com o corpo e com a alma enquanto as modelos se mimoseiam em frente das suas lentes, não consegue garantir se os seus ouvidos alguma vez estiveram distraídos. Bem de certeza que o fotómetro está bem calibrado e as pilhas são novas, não pode ter dados errados de exposição e, de certeza, que o diafragma de nenhuma das objectivas ficou preso como aquela num trabalho no ano anterior. Continua tudo um mistério que o vai consumindo enquanto o resto da equipa, aliviada se diverte, conta anedotas e histórias de outras aventuras.

Chegados, alegres despedidas e até ao próximo, gostei muito, foi um grande prazer e o nosso fotografo com o estômago colado às costas lá vai colocar, na caixa nocturna do laboratório, o seu saco cheios de tubos onde todo o fruto do seu trabalho repousa em grande mistério.

Apesar dos ossos, músculos e massa cinzenta pedirem aquele descanso que se tem quando se fez o que deve, não há maneira de serem 10 da manhã e ala laboratório com ele. Só vê, de olhos fechados, uma tiras coloridas com 36 imagens cada mas, apesar do esforço, não consegue ir ao que lá esta. De ossos ainda mais doridos e estômago sem caber o que a todos os que começam o dia com gosto e têm, talvez, como único grande prazer do dia, o pequeno almoço, o nosso fotografo corre, voa, ultrapassa, buzina, raio do carro não anda eh pá este gajo não me sai da frente, até a porta do laboratório, espero que  não se tenham enganado e revelado como negativo, que não me venham dizer que a máquina parou com o trabalho dentro, não lhes perdoo se têm a química velha e me estragaram as cores, D. Fernanda o meu trabalho está revelado? ainda faltam dois filmes e acabar de secar, a sério, a esta hora? é que houve muito trabalho, logo hoje, não pode ser, vá beber um cafézinho, café? se bebo café expludo. . . o seu trabalho está pronto.

Como gato a rato em vias de fuga atira-se ás tiras de filme com olhar de especialista à espera de defeito mas orgulhoso de si e sabendo que não pode acontecer. Corridos a olhos mais rápidos que último processador de computador em loja dos nossos dias, respira, finalmente, fundo e todas as dores nos ossos passam, o estômago descola e, como se nuvem fosse, o seu carro corre sem pressa a entregar para a selecção da melhor menina a mostrar casaco em página impressa no catálogo a mostrar em loja fina de bairro.

Preparado para mais outra dose de dores deixa, feliz, leve e satisfeito por dever cumprido, o local porque a partir daqui outros olhos e criadores se encarregam de usar para o que foram feitas as fotografias dos três dias de gozo e angustia.

Mas, como sempre, os tempos passam e as novidades no comboio do progresso substituíram o filme pelo sensor digital, a imagem feita e misteriosa a repousar até que química alquimista a traga a luz como flôr que nasce de botão em dia de Primavera, passou a ser feita feita de zeros e uns podendo, de imediato, ser decidida se vai ou fica, se de luz está bem temperada ou deixa estar que que depois dá-se um jeito. O que trouxe de imediatismo perdeu de mistério, aquela ligação dolorosa a que só amantes dados ao sofrimento se podiam entregar a tão exigente amada.

O nosso fotógrafo continua a ser amador e a viver desse dar amor e, tem a certeza, que apesar desse sempre com o coração nas mãos que o trabalho em filme implica, ninguém nesses dias intensos se sentiu, ao mesmo tempo, tão feliz por ter tido o privilégio de o poder fazer. Não voltaria ao slide a não ser em dia de nostalgia, mas que sente alguma saudade, naqueles dias em que a memória nos passeia pelo tempo, daquele doloroso mistério, isso sente.

Texto e foto: Fernando Colaço