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Como um pensamento.

Como um pensamento mas daqueles que aparecem devagarinho, quase desvanecidos, sem que quase os sintamos aparecer , e, aos poucos, como naquelas sequências de câmara lenta muito suave, assim mesmo muito suavemente, uma imagem começa a aparecer no papel avermelhado pela luz que se derrama pelo improvisado laboratório de câmara escura na minha casa de banho, há alguns anos atrás. Como se de um truque de magia se tratasse, um líquido feito por druidas, trazido de lugares proibidos aos seres comuns, faz aparecer aos meus olhos a primeira impressão a preto e branco da minha vida e feita por mim.

Extasiado, como se tivesse feito a coisa mais importante do mundo,  levo a folha a banhos noutros mistérios para garantir a sua paragem no tempo, a cristalização para a eternidade daquele processo mágico. De mãos tremulas acendo a luz branca crua e cruel que põe à minha frente a coisa mais deslavada  perante os meus olhos , como fotocópia em antiga máquina com falta de manutenção, para grande desconsolo depois de tanto empenho, paixão e desvelo. Mas eu tinha feito tudo como estava nos livros que antes estudei, passo a passo, para tão infame resultado.

Tal como mau cozinheiro a seguir livro de receitas, assim tinha ficado a minha primeira impressão em papel a partir de negativo preto e branco. Ainda bem que assim foi. Imaginem se tinha saído bem. Ufano como conquistador de campanha militar a exigir estátua no centro da praça , mas logo perdedor das batalhas seguintes por não saber lidar com todos os detalhe e estratégias para manobrar subtilezas, temperaturas, diluições, tempos de exposição e outras malandrices que vamos aplicando naquele processo como meninos curiosos que querem sempre ver como será de outra maneira.

Dou graças por ter saído uma desilusão a minha primeira impressão a preto e branco no meu laboratório improvisado na minha casa de banho. Foi isso que permitiu um caminho. Um caminho cheio de desilusões, experimentações, quase lá mas ainda não e que foi construindo em mim a percepção, o sentir na ponta dos meus dedos, nos meus olhos, naquela coisa estranha que não vem nos livros mas nos faz fazer parte das coisas que fazemos e, finalmente, uma impressão em papel de preto e branco digna desse nome. E como a senti. Tenho a certeza absoluta que não foram as fotografias feitas em negativo de  cor, que mandava fazer no laboratório,  ou os diapositivos que recebia em pequeninas molduras de cartão ou plástico que com grande alarido, depois da noite chegar, obrigava toda a gente a ver em magnífico projector.  Foi sim a mística ligação com aquela folha de papel Agfa de tom quente que nunca mais me abandonou enquanto o meu laboratório improvisado na minha casa de banho funcionou e, ainda hoje, serve de bitola no meu novo laboratório dentro do meu computador.

A partir daquele momento de lágrima quase derramada sobre tão preciosa peça percebi que uma fotografia só o é de facto quando impressa em papel,  tal página de livro que se cheira, sente na ponta dos dedos e irradia olhos adentro para que se ame e  imortalize na nossa memória. Foi a partir daquele momento que comecei a sentir que uma fotografia é mais, muito mais, do que uma impressão. Foi a partir dali que percebi que uma fotografia depois de impressa é livro de história, tem montanhas e vales mesmo que as não reproduza, tem luz e falta dela, tem mistérios, alegrias e tristezas, subtilezas e crueldades e é provavelmente, a fotografia impressa, o melhor espelho da alma das pessoas e do mundo. E isto é demasiado poderoso para ser levado de animo leve.

Foi por ter dado conta disso naquela, finalmente, satisfatória impressão em papel de preto e branco que comecei todo um processo de procura, primeiro com a máquina fotográfica a, as, quais honrarei noutra altura, e depois dentro daquela luz vermelha que muitas vezes me pregava partidas a dizer-me que já estava quando não estava e que com o tempo se tornou amiga de muitas sofridas, irritantes e felizes horas. Umas vezes em mera curiosidade experimentando tempos de exposição com tempos e temperaturas de revelação. Outras vezes destapando e tapando as zonas da imagem saída do negativo pela lente do ampliador, para um trabalho meticuloso e paciente de tentativa e erro e chegar à imagem que, a meu ver, falava finalmente com a alma que tinha dentro. Um trabalho de “dodge” e “burn” muito tempo antes do Photoshop, e feito à mão com as mãos e com as coisas mais díspares que colocava à mão: recortes de papel nas mais variadas formas para tapar a luz quando já era de mais naquela zona, penas de galinha para um recorte suave ( daí os senhores que fizeram o Photoshop usarem o termo “feather” para suavizar), pauzinhos com muitos raminhos para difundir a luz e outras que agora não me vêm à lembrança.

Dou graças por tudo isso. Os tempos mudaram, os instrumentos também mas o essêncial permanece. Uma fotografia é uma fotografia e não encontro quase nada feito nos programas de tratamento de imagem dentro dos laboratórios de hoje que são os computadores, máquinas magníficas que podem fazer levar a nossa imaginação aos Himalaias da criação, repito, não encontro quase nada que se não fizesse no laboratório improvisado na minha casa de banho.

Depois de muito caminho caminhado sem o meu laboratório de preto e branco improvisado na minha casa de banho, a vida e as necessidades dela assim o quiseram, venho desde há algum tempo, desde que me tornei Fotógrafo de Casamento, a reencontrar-me com essa primeira impressão a preto e branco que me transportou para o magnífico e precioso mundo da fotografia, aquele da luz e da falta dela, das histórias que conta, das montanhas e vales mesmo que lá não estejam, do rir e do chorar. Da vida. Da vida impressa em papel e, sempre que possível a preto e branco, ou melhor, numa escala de cinzas como eu gosto muito.

Talvez seja por isso que nas minhas fotografias de casamento não procure o espectacular, o inusitado ou o estranho mas sim aquilo que é simples, que de facto é importante, aquilo que é das pessoas. Da vida das pessoas como o é um dia de casamento. E entregar-lhes essas fotografias impressas em papel, e sempre que possível a preto e branco.

Texto e Fotos: Fernando Colaço