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Não deve existir, no mundo, objecto que fascine mais as pessoas do que uma máquina fotográfica. Bem, talvez uma bola de futebol. Mas dessa eu não sei falar, sempre me foi um objecto muito estranho como se pertencente ao lado do íman, que repele, quando se chega aos meus pés.

Desde que o senhor Eastman se lembrou de fazer uma caixinha a dizer que só era preciso carregar no botão e que eles faziam o resto, uma espécie de loucura vinda de uma adicção como outras que por aí há mas que não são muito boas para a saúde. A das máquinas fotográficas e seus coadjuvantes só o poderão ser para as carteiras, para alguns matrimónios e talvez para acusações de marcação de ponto já fora do permitido pelo patrão.

Não deixa de ser espantoso como a máquina fotográfica e o seu resultado, a fotografia, consiga, depois de tantos anos de ser novidade, derramar ao ponto de infestação, tanta fotografia, tanta discussão com paixão acesa, como só o futebol e a política conseguem, nos diversos meios que hoje a modernidade permite: livros, revistas, internet. Pertencem-se a marcas e discute-se com paixão até ao limite e argumenta-se com a desrazoabilidade da pertença, mais uma vez, como no futebol ou na política ou nos carros.

No entanto o que me interessa são, foram, as minhas máquinas. Um processo já um pouco longo umas vezes calmo e pacífico outras nem tanto. Passando da satisfação à procura do ideal atingindo, algumas vezes, o ponto da passagem para o outro lado da sanidade onde já não somos nós que decidimos mas sim o objecto do nosso desejo. Quem anda nisto sabe do que falo.

Posso dizer que uma máquina fotográfica salvou a minha vida. Bom, salvar não salvou mas deu-lhe novo sentido quando aquele que me tinha norteado durante o fim da minha adolescência e a minha formação para tal, como fio fino que entretanto se foi tornando, finalmente se quebrou. Imagine-se que queria ser professor. Não digo do quê porque pertence a outra vida e não é para aqui chamado. Quando, de repente, fico sem razão de me levantar todos os dias o problema pode ser grave, pelo menos até o meu cata-vento da vida se lembrar de apontar noutro ponto cardeal dos meus interesses.

As circunstâncias encarregaram-se de traçar o caminho. Uma pequenina máquina fotográfica comprada com o intuito de registar uma viagem programada pelos Alpes Franceses onde, ao mesmo tempo, se aproveitaria para ganhar uns franquitos, ainda não era tempo de euros, a apanhar frutas naqueles vales lindos das montanhas alpinas. O que não previ foi o poder que aquela coisinha pequenina e até então praticamente desinteressante que era a Yashica FX-3 Super com a sua lente de 50 1.8.

A ideia da viagem era ganhar algum dinheirito para ajudar a redireccionar a vida quando voltasse para Portugal. Foi o que aconteceu, ajudou muito, mas o redirecionamento começou a partir do momento em fui levantar os primeiros slides feitos com aquela coisa pequenina que fazia click quando pressionava o meu indicador direito num botãozinho, ou botanito como se diz na minha terra, que tinha do lado direito. Desculpem, sei que todas as máquinas têm esse botanito mas o desta era especial porque foi o meu primeiro botão a fazer disparar o obturador de uma máquina fotográfica e isso é como o primeiro beijo, fica para a vida mesmo que seja só aquele. E eu tenho uma ligação especial com os botões de disparo de todas as minhas máquinas.

Os botões de disparo das máquinas fotográficas que tive até hoje mostraram-me que são o elemento mais importante da minha ligação com as mesmas. Não são simplesmente botões como os das camisas, das calças ou dos casacos que além da sua função apenas podem ser mais bonitos, feios ou bem escolhidos com a cor ou o feitio do local onde são cosidos. Longe disso. Os botões de disparo das máquinas fotográficas, pelos menos das minhas, têm sempre uma personalidade muito forte: ou são suaves e eficazes sabendo dizer à ponta do meu indicador direito, que tem por função fundir-se com o dito, qual o momento certo, mas fundamentalmente como gosta de ser pressionado, prefiro acariciado, ou são duros e, em vez de pressionados, querem um piparote porque devem pensar que são tecla de piano, mania de artista, ou ainda nervosos a reagir ao mínimo toque antecipando irritantemente aquele disparo que iria, mas de certeza, ser aquela fotografia. Parece ser escrita de encher texto mas quem sabe disto sabe do que falo. Um botão de obturador de uma máquina fotográfica com mau feitio pode levar-nos, muitas vezes em vontade,  a atirar as desgraçadas das máquinas, que não têm culpa da personalidades dos referenciados, pelo éter até qualquer parede que se encarrega de reparar de vez esse mau feitio. Eu disse em vontade. Na prática somos nós que temos que nos adaptar ao menino birrento.

Peço imensa desculpa mas a minha ligação aos ditos nem sempre é pacífica e tive que deixar bem explicado mas, afirmo, não sou pessoa violenta e nunca trataria mal uma máquina fotográfica. Voltemos aos famosos diapositivos. Antes de conseguir encontrar fruta para colher foi necessário dar uma voltas pelas quintas. Agora, imaginem essas quintas nas encostas dos Alpes onde cada uma, cada garganta, cada vale ou pico são e sempre foram objecto atractivo, desde o princípio, das máquinas fotográficas, dos seus botões de obturação e dos olhos dos seus donos. Só podia injectar em mim qualquer doidice e que a partir daí o fim do dia nas maçãs fosse um desejo assolapado para meter o olho dentro daquele rectângulo com um circulosinho que partia a imagem a dizer-me que estava no foco e acendia a luzinha verde para me dizer que estava a luz na medida certa. Era uma loucura.

Nunca me hei-de esquecer da minha primeira Yashica FX-3 Super e da sua lente de 50 1.8. É por ela que aqui estou hoje, fotógrafo por ganha pão, de casamento por opção e amador sempre por amor. É verdade que as coisas, depois, se vieram a mostrar bem mais complicadas, complexas e nem sempre fáceis de resolver quando o que fazemos com as nossas máquinas tem que atingir resultados, olhares e corações e sabermos que é uma aprendizagem nunca finalizada. Outras máquinas foram precisas, maiores, bem maiores e com muitas mais e outras lentes do que a pequenina Yashica FX-3 Super com a sua 50 1.8. Mas ela terá sempre um lugar muito especial na minha memória e no meu coração.

Talvez como o primeiro beijo.

Texto e foto: Fernando Colaço