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Faz já um bom par de anos que me casei. Não vou falar disso nem do tempo que, feliz, entretanto passou e consolidou esse dia. Não faz parte do tema do site.

No entanto durante muitos anos ocupei o meu lado profissional da vida trabalhando como fotógrafo. Como era hábito em Portugal fui um dos muitos profissionais autodidactas que, entre a curiosidade e um certo espírito de liberdade, teimavam em fazer depender de si próprios a sua existência e o seu, e da família, sustento.

Assim durante bastantes anos fotografei no meu estúdio muita garrafa de bebidas, frascos de shampoo, maquinetas de todo o género. No entanto só conseguia ter uns arrepios, daqueles que sentimos quando o que estamos a fazer toma conta de nós, quando ia com os meus amigos Anselmo e Anabela fotografar modelos para os catálogos da Naia, loja de roupa feminina em Lisboa, e para outros catálogos que, entretanto, já não existem.

Existem, depois, momentos na nossa vida que lhe dão uma volta e não mais as coisas ficam na mesma. Um dia fui fotografar o casamento de um amigo de um amigo. O raio daquele arrepio apareceu e com tal intensidade que decidi, e porque os tempos também estavam a mudar, esquecer os frascos e começar a fotografar aquilo que, de facto, me faz sentir vivo a trabalhar: pessoas.

Mas pessoas em interacção, pessoas em estado de mudança, de celebração, de convívio, de emoções à flor da pele e, fundamentalmente de grande esperança no futuro. E isso acontece nos casamentos.

Ser fotógrafo de casamento permite-me ter o privilégio de registar para memória futura dia de grande importância, não só para aquelas duas pessoas que se enlaçam mas, também, toda a emanação de energia que os rodeia. Chegar ao fim do dia e trazer comigo as fotos dos laços que se teceram para toda uma vida é um privilégio que não passo para ninguém. Quero-o só para mim.

 

Texto e Fotos: Fernando Colaço