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Tenho a satisfação e a cruz de gostar do que faço.

Garanto-vos que não é fácil. Podia ter a atitude cândida de eterna satisfação por fazer algo que me preenche a vida e o espírito e, ao mesmo tempo, põe à minha família o pão na mesa.

Ser fotógrafo de casamento permite-me fazer, numa única acção, quase todos os tipos de fotografia que se praticam: reportagem, retrato, arquitectura, produto, social, etc. Daí me sentir preenchido e não procurar outro tipo, ou melhor, fotografar fora do contexto do casamento. Também é um exagero, concordo, mas para já é assim.

No entanto se se pensa que chego alegre e feliz depois de um dia bem passado com os meus clientes e os seus convidados no dia mais feliz das suas vidas, pelo menos até ali,  desengane-se. Bem chegar chego e, pelo menos até dia seguinte. Depois começa o trabalho de descarregar as fotos do casamento no computador e fazer a escolha do melhor do dia.

Aqui começam as angustias: porque razão escolho esta e não aquela, porque razão não me baixei mais um bocadinho e esta imagem teria saído melhor, porque razão não usei a outra objectiva que tinha dado um angulo melhor, etc, etc, etc.

Pode pensar com isto que ou não faço grande coisa ou sou muito insatisfeito com o que faço. Vejamos as coisas desta maneira: para fazer fotografia de um casamento temos que estar capazes de ter uma grande capacidade de conhecer e gerir o nosso equipamento fotográfico de modo a que seja parte integrante do nosso corpo e da nossa cabeça. Só assim poderemos, sem pensar, saber o que fazer conforme a situação, o espaço, a luz, etc. Não existe tempo para pensar. Se se pára para pensar passa o momento. E é para captar momentos que lá estamos.

Por outro lado temos que saber o que fazer com ele, equipamento, para produzirmos aquilo que podemos chamar o nosso estilo. Aliar a técnica, uso do material, com estética, o que produzimos com ele é, muitas vezes, de conjugação difícil.

Muitas vezes para produzir determinado resultado final temos que desconstruir, ou por palavras mais simples, fazer mal feito para obtermos o resultado que queremos. Essa é a parte mais difícil. Como é que a cada momento temos que decidir como captar nas condições certas para o resultado que pretendemos. Essa é a grande aprendizagem de qualquer fotógrafo. Primeiro aprende a seguir as regras, depois começa a desafiá-las para chegar ao seu resultado final. É aqui que a fotografia começa a ser interessante. É aqui que começamos a ver qualquer começar a ser a fotografia de fulano ou beltrano.

O grande problema é que, apesar de nos tornarmos no que fazemos, só conseguimos atingir algum resultado se e quando somos insatisfeitos, constantemente, com o resultado do nosso trabalho. E isso, muitas das vezes, dói. Se não doer e somos apenas alguém que se auto satisfaz com o que vai conseguindo, talvez melhor seja parar e mudar o rumo das coisas.

Toda esta conversa tem a ver com facto de, quando me vejo perante o resultado de um dia de fotos num casamento, constantemente me questiono sobre a razão da forma como fiz esta ou aquela fotografia. Se consegui, por um lado, mostrar o que se passou e, ao mesmo tempo produzi uma imagem que, por si só, é um resultado de valor estético e cumpre a função para que foi feita: contar uma história. Isso será assunto para outra reflexão.

Por outro lado, façamos este exercício:

Numa aula de iniciados na aprendizagem da fotografia damos a fazer o seguinte trabalho: todos com a mesma máquina, mesma lente e mesmo assunto, ou seja, todos têm que fotografar a mesma coisa.

Como resultado vamos ter, sempre, fotografias diferentes. Ou porque cada um escolheu um angulo diferente, optou pela direcção da luz de outra maneira, tem mais jeito ou menos para a composição e, finalmente, porque tem, como eu chamo, a sua própria vibração a sentir o que está à sua frente e, com isso, é tentado, sem que se aperceba disso, a fotografar dessa maneira.

Podemos aprender todas as técnicas de como fotografar, aplicá-las todas, e bem, sem, no entanto, conseguirmos fazer nada de jeito. Isto porque, como para tudo, para o que fazemos precisamos de ter a nossa inclinação natural. Porque isto é diferente de gostar. Gostar, ter paixão pela fotografia não garante a ninguém que, de facto, a saiba fazer. A inclinação natural para isso, sim. Todos conhecemos gente com essa inclinação para certas coisas e não que lhe dão nenhuma importância.

Temos o exemplo do mecânico da oficina onde entregamos o nosso carro desafinado. Vai “à máquina” como hoje se diz, apertam aqui e ali mas o carro continua sem força e a gastar muita gasolina. Voltamos à oficina e, nesse dia, quem nos recebe é alguém que, em vez de ir pôr, de novo, o carro na máquina, escuta a máquina. Perde algum tempo a “sentir” e a “ouvir ” o motor. Depois pega na chavinha de fendas, dá um jeitinho, certo, preciso naquele parafuso que ninguém tinha tocado e o motor recomeçou a cantar como devia.

Ora isto vale para tudo o que fazemos. Temos que sentir o que fazemos para chegarmos a um resultado. É evidente que isso não é suficiente. Mas é o motor que impulsiona para o teste, para a experiência, para a intuição de que assim ficará melhor.

Foi isso que fui sentindo ao longo do meu processo enquanto fotógrafo e, depois, enquanto fotógrafo de casamento. A aprendizagem da técnica apenas nos põe no caminho do fazer. Conseguir determinado resultado é algo que vai sendo conseguido no tempo e por vezes é uma evolução que nem nos damos conta. Vai acontecendo e, um dia, temos algo que é nosso. Temos uma fotografia que sentimos, que só nós é temos aquela forma de enquadrar, que produzimos os tons que dão realce às nossas fotografias. Resumindo, leva muito tempo e trabalho, chegarmos a bom porto.

Fotografo assim porque, no meu percurso, fui chegando a resultados que me agradavam: a composição, os tons do preto e branco, a escolha da tomada de vista correcta para o que estava a fotografar, etc.

Acredito que os fotógrafos, incluo os de casamentos, quando têm uma imagem que os identifica não chegaram lá porque decidiram ser assim mas, porque isso se lhes foi impondo ao longo do seu percurso. Só quando isso acontece o resultado aparece. Depois é sempre um processo de depuração no caminho, utópico, para imagem perfeita.

Texto e Fotos: Fernando Colaço