O fotógrafo de casamento e o ano que lhe fez sentir muita, muita falta

O ANO QUE NÃO FOI E A FALTA QUE ME FEZ pelo O FOTÓGRAFO DE CASAMENTO

Ao longo de quase 33 anos de fotógrafo, como ganha pão, já passei por vários momentos de sucesso, de quebra, de mudança de direcção mas nunca, repito, nunca senti o sabor do zero. Zero na quantidade de trabalho, zero no ganho que faz com que a vida seja comigo e a minha família e zero no que tenho sempre muito gosto em mostrar e, com aquela alegria ingénua das crianças, dizer fui eu que fiz.

Foi um ano que nunca me fará falta mas foi um ano em que senti tudo o que falta me faz. Poderia dizer, como fotógrafo, que falta me faz fotografar. Mas fotografar pode ser em qualquer lado e sobre qualquer coisa e, como vaidoso que sou e já aqui o escrevi várias vezes, fotografar é, para mim, fácil, não preciso de me esforçar para levar a câmara fotográfica ao meu olho direito, com lente escolhida para tal, e encontrar fotografia para fazer em qualquer lado e sobre qualquer assunto. Se será sempre boa é outra história. Também não sou o fotógrafo que ande sempre de máquina ao ombro à espera de encontrar a tal, aquela que todos os que fotografam eternamente esperam encontrar. Gosto muito de fotografar enquanto trabalho e é nele que me encontro completo no que faço.

Também não sou um fotógrafo que tenha alguma paixão pela fotografia. Pelo que me lembro, nenhuma das coisas, ou outras, por que me apaixonei ao longo da minha vida permaneceu mais do que deve permanecer uma paixão. A fotografia já anda comigo há mais de trinta e cinco anos, por isso…será outra coisa. Mas há coisas, essas sim, que me fazem falta, muita falta.

Sinto falta do meu nervoso miudinho que começa na véspera de uma cobertura de um casamento. Sinto falta de, logo pela manhã, pegar nas baterias das minhas máquinas e flashes e colocá-las a carregar para que a energia delas se ligue à minha e nada do que passe pelos meus olhos venha a perder-se e não dê em fotografia. Sinto falta do afago que dou às minhas máquinas fotográficas e lentes, com pano suave, e sopro afastador de pó que possa estragar o nosso gozo do dia seguinte. Sinto falta do arrumo, com o esmero com que um pai deita um filho pequenino, no saco que será a cama, o transporte e o lugar de mudanças rápidas no dia seguinte. Sinto falta da insónia pela expectativa e pela dúvida se está tudo no tal saco: máquinas? estão. lentes? estão. baterias? estão. cartões de memórias limpos? estão. o que poderá faltar? ah!…as toalhinhas de pó para tirar o brilho do calor do sol na cara dos meus noivos? estão. o telefone será que vai tocar a horas? o percurso do gps será o melhor? claro. nunca me enganou. Mas porque raio não adormeço?

Sinto falta do caminho até à casa do noivo. Sinto falta de, afinal, a mãe ainda não ter chegado da cabeleireira e o pai não saber dar o nó da gravata que é coisa que a mulher dele sempre se encarregou de fazer. Sinto falta de começar a fotografar o fato, o relógio, os sapatos e outras coisas pequenas que servem para entreter e mostrar depois, talvez muito depois, a filhos ou netos o que vestiu nesse dia. Sinto falta de, depois de noivo pronto, já ter passado da hora combinada com a noiva. Sinto falta da corrida até lá, já com uma tensão nos braços e aquela falta de paciência para o tipo que se atravessa na frente com o seu carro tartaruga e que não posso ultrapassar porque é traço contínuo e não vai mais depressa porque apenas vai comprar o jornal e se está nas tintas para fotógrafo de casamento apressado a encontro com noiva.

Sinto falta de não conseguir estacionar o carro, raios os parta, têm que estar todos nas suas casas com o carrinho parado à porta e nenhum se tenha lembrado que um fotógrafo de casamento viria ter com uma das suas vizinhas que vai casar. Sinto falta de tocar à campainha, bom dia, disseram-me que é aqui está uma noiva, a tentar ser engraçadinho para aliviar a desculpa do atraso, é sim senhor está lá ao fundo pode ir ter com ela então bom dia e desculpem o atr….não faz mal Fernando, ainda nem começámos, a maquilhadora ainda nem chegou…..

Sinto falta dos pais, das mães, das tias e tios, dos primos e primas e daqueles amigos e amigas de longa data que vão preenchendo espaço e roubando a atenção das lentes do fotógrafo de casamento que deveria ser exclusivo da noiva. Não os tivesse convidado a ir lá a casa. Não tenho nenhuma culpa disso. Sinto falta da saída triunfal da noiva, bela como nunca, para o automóvel que a levará ao local da cerimonia e dos vizinhos que não faltam para lhe desejar tudo do melhor. Que sejas muito feliz.

Sinto falta de todos, sentados e sabedores que algo tão importante e extraordinário se vai passar e cada um acaba por ser atracção para as minhas lentes e câmaras, sempre sedentas de roubo de momentos a caras de expectativa, de emoção, de alegria e de júbilo. Sinto falta da falta de paciência do meu dedo indicador direito, o grande culpado das minhas fotografias mal feitas por ser muito impaciente, no botão da máquina que faz click. Sinto falta de quase ser espezinhado pelos noivos para aquela fotografia que tem que ser rente ao chão com eles banhados por flores e arroz e braços no ar e vivas e um glorioso céu azul por detrás e depois muitos mas muitos beijos assim tudo a correr.

Sinto falta de ver toda a gente satisfeita ao sol e petiscar para ganhar apetite para a grande refeição que será a grande aclamação daqueles noivos. Sinto falta dos convidados acanhados, vaidosos, desleixados, engraçados, que têm a mania que são engraçados, os novos e os velhos e que estão ali todos porque amam aqueles dois. Sinto falta da corrida da tia à procura de todos os sobrinhos e que os traz pela mão para a fotografia com os noivos, dos irmãos do pai dela que não se viam vai para vinte anos ou da avó dele que me segredeia que já pode ir descansada e feliz, depois de ver o neto casado.

Sinto falta da festa, dos copos de uns, do enfartamento de outros, das infindáveis corridas dos putos que depois começam a ocupar as cadeiras e alguns cantinho no chão para um sono merecido, dos que sabem dançar, dos que apenas se abanam, dos que já não dizem coisa com coisa mas que, na hora do bolo, todos se juntam como se a ultima liturgia do dia fosse a mais importante. A da verdadeira partilha simbólica dos noivos com todos os que ali estão apenas porque os amam.

Principalmente, sinto falta do momento em que, depois de tudo acabado, reaconchego as minhas fieis amigas no saco que as vai levar a descansar até casa e parto leve, satisfeito de dever cumprido de modo a que nem sinto as dores nos calcanhares, no pescoço (que elas são minhas amigas mas pesam muito), nos braços e nos outros lugares que seria exaustivo estar a descrever. Nem imaginam a falta que me fazem esse momento…e essas dores. Sinto tanta falta e tanta falta me fazem.

Lamento, mas não há fotos, ou melhor, não houve fotografias. Talvez este ano….espero.

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