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 Sempre gostei de ouvir música. Mas nunca fui capaz de a reproduzir. A Natureza não quis preencher em mim, pelo fazer, esta grande necessidade que tenho de conviver e , com isso, viver a música. Ao contrário de meu pai, cantor intestino das coisas da sua terra, o Alentejo, sabedor das notas e das necessárias entoações que fazem a diferença entre quem canta e quem sabe cantar.

 O meu Pai tinha a mais linda profissão do mundo. Foi com pena que as mudanças do mundo e as necessidades dos filhos o tivessem obrigado a partir para outras andaças e deixado para trás a sua paixão. O meu pai tinha o privilégio de sentir, literalmente, nas suas mãos conhecedoras e sábias as alegrias e as tristezas de quem tinha a sua sobrevivência ao sabor dos caprichos da natureza. Até ele vinham caras felizes em ano bom de colheita rara, qualitativa, de grão cheio e alqueires de ganho. O meu pai sabia sentir nas mãos se o que tinha como matéria prima para transformar iria, também, converter-se em fonte de vida com aquele sabor que só no Alentejo se cultiva.

  Mas o meu pai também tem aquela coisa que faz com que as notas de música que lhe saem pela voz cativem, sejam genuínas e, também aí, lhe chamem mestre. O que sabe. Apesar de só muito tarde na minha vida ter percebido o que tinha sido para o meu pai a sua mestria e as coisas da sua música me terem passado de lado, com aquela coisa erradamente normal entre os filhos e os pais, repito, só mais tarde percebi que estas ténues memórias, de ouvir cantar o meu pai com outros homens no seu ligado, misterioso e uníssono canto, como o é o Alentejano, foram importantes para o que fui aprendendo a ouvir e, por estranho que pareça, no que faço enquanto fotógrafo e, principalmente na minha qualidade de fotógrafo de casamentos. Percebi a ligação do canto do meu pai moleiro e do seu filho fotógrafo. Só é pena que percebamos, ás vezes, as coisas importantes da vida já num tempo que nos impede de as reviver de outra forma. Mas, porventura, poderá esta ser a forma certa de ligar um pai ao filho e a passagem se tenha feito, indelével mas notada. Aí cumpre-se.

 Vem isto a propósito daquelas memórias que, às vezes, nos dão ao pensamento nos mais descuidados afazeres e nos espantam pela originalidade da forma como aparecem. Reparei que as minhas memórias de miúdo relativo a locais são estáticas. Lembro-me do pai cantar no moinho em dia de pescaria com os seus amigos no lado de baixo do caminho que iria atravessar o rio e, voltando para trás em cotovelo levava a entrar no moinho onde tantas vezes ouvi, quem chegava com o seu trigo que queria transformar em pão, um bom dia mestre Joaquim. A separar as duas partes dos caminhos estava uma barreira, daquelas das estradas, cheia de pedras, amigas de toda a minha infância quando, por magia da idade, do local e da condição de filho único à altura das memórias, se transformavam em aviões, carros, autocarros, soldados e montanhas e outras coisas que se esboroaram na passagem da idade da fantasia e a outra que já sabia que uma talisca estreita e comprida atirada daquela maneira pelo éter  não produzia aquele barulho, parecido com algumas naves da Guerra das Estrelas, por magia mas por fricção com o ar e já não tinha tanta graça atirá-las. Talvez o George Lucas também tivesse atirado taliscas e as tivesse homenageado como naves do outro universo, o da imaginação. Exactamente, sentado no alto da parte de cima do caminho vejo os homens da pescaria, com o meu pai, juntos e em cante entre o monte de taliscas e o rio que, minguado pelo Verão, apenas mostrando loendreiras e silvados até ao outro lado onde a estrada se transformava em fio que se perdia em direcção ao Povo.

 Da mesma forma me lembro do Tio Guerreiro. Homem já de sessentas, morador no Montinho que tinha a grande magia de ter uma horta onde crescer planta cuidada por si era fácil e não havia melhor honra, coisa que irritava a minha mãe que não percebia que as coisas que me pedia para fazer não tinham nada que se parecesse com o toma lá esta enxada e vai regar o canteiro dos tomateiros, ou das batatas, ou das laranjeiras e ser tratado como igual. Ter aquele rio pequenino de água a correr entre plantas e, eu,  poder decidir a quantidade que tinha que dar a cada uma, era um poder e uma honra que só criança sabe o que é. No entanto, de tanta actividade e movimento lembro-me sempre da horta nos mesmos ângulos e de forma estática. Como uma fotografia. Tal como do meu pai no seu cante com os seus amigos.

  Penso que todos temos aqueles momentos que, de repente, nos elucidam sobre dúvidas que, ou sempre tivemos sem resposta ou até nunca pensámos em procurá-la por ignorância da sua existência e nos aparecem num tem graça que nunca tinha pensado nisso. Hoje tive um desses momentos. De repente ligo a minha forma de fazer a minha fotografia ao cante Alentejano do meu pai, à horta do Tio Guerreiro, à voz de Amália Rodrigues que ecoava tantas vezes rio abaixo vinda do rádio da casa, ao som sereno e sincopado de Chet Baker, à energia maior que o mundo da Sinfonia Fantástica de Berlioz, ao som ácido e lírico dos Led Zeppelin, ao blowin in the wind do Bob Dylan, à noite passada do Sérgio Godinho, ao smoke on the water dos Deep Purple, ao nunca satisfeito e sempre pronto para coisas novas Miles Davis e tantas centenas de outros que me fizeram a cabeça ao longo do meu tempo. Tanto me comovo com uma simples canção pop, um pesadíssimo hard rock, uma 9ª de Beethoven ah… e uma balada de Vitorino dos manos do Alentejo.

 Porque a música é como a vida, diversa, leve e poderosa, simples e complexa, extraordinária e difícil. Para fotografá-la, a vida, sinto ter dentro de mim toda esta música mesmo que a não saiba fazer, interpretar ou até entender. Existe uma forma de verificar se e quando me pertencem ou a elas pertenço, a música, a vida e as fotografias. Empatia. É a que uso quando, mesmo que não perceba o que ouço, vejo ou vivo, mas me toca. E para mim chega. O resto do conhecimento sobre pode vir depois. 

  Não peço a ninguém que leia nas minhas fotografia mais do que elas têm. Apenas impressões de um bocado da vida de pessoas que já estavam antes, irão estar depois do dia do casamento e eu estive presente naquela data da vida delas e com isso pude trazer impressões pelas quais desejo que sintam empatia por elas e que saibam de certeza absoluta que cada uma delas,as fotografias, estão todas cheias de música, pelo ritmo ás vezes, pela profundidade outras, pela singeleza aquela ou no tempo certo esta. Não porque tenha feito por isso ou que seja um projecto. Apenas porque sim.

Texto e foto: Fernando Colaço