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Hoje conciliei-me com a minha lente 85 1.4.

Ou melhor, hoje conciliei-me com a minha terceira lente de 85mm. Já antes tinha a a 85 1.8 a que vou chamar 85A, depois a 85 1.4 a que vou chamar 85B e agora a outra 85 1.4 que será a 85C. Isto porque não me pagam para escrever sobre marca e não sou nenhum fã de marcas, apenas as uso para o que falta me faz e o assunto das letras agarradas umas às outras com intervalos não tem nada a ver com as ditas mas sim o que elas têm tido de importante para mim.

Esta coisa de se ser fotógrafo, daqueles que amam, é uma coisa muito, mas mesmo muito, complicada. Uma lente fotográfica é um produto de engenharia óptica que permite que a luz se transmita ao longo de um tubo que, conforme o seu comprimento, terá a denominação de focal. Assim tendo como referência o formato de filme de 35mm, também chamado de 135 e hoje, com o glamour da modernidade e das trocatintices da era digital, simplesmente FF. Uma lente com 5cm de comprimento é a famosa, e culpada do mau caminho de muita gente, 50mm. Também chamada de normal. Nunca percebi porquê a não ser porque seja o mais parecido com a visão que os nossos olhos permitem. Mas isso é assunto complicado que agora não me apetece.

O problema é que a partir do momento em que saem da caixa onde com toda a segurança e protecção fizeram viagem, dentro de contentores por navios, aviões e camiões, mais complicada e aventurosa que um Fernão Mendes Pinto ou daqueles aventureiros modernos que correm todos os lindos e perigosos sítios do mundo com equipas de televisão, se transformam em coisas almadas que transportam a quem as usam aos limites da falta  de juízo, de paixão assolapada, enfim, daquelas coisas que têm as pessoas que com mais ou menos capacidade de as usar têm em comum: a forma como uma coisa fria de metal, vidro e plástico se transforma em algo de transcendente com alma divina que lhes vai possibilitar transformar o modo como o mundo é feito, depois de viajar aos trambolhões entre vidros, anéis de foco, diafragmas, obturadores  e de cabeça para baixo aterra  num filme ou num sensor dos nossos tempos para deleite de meninas de olhos como se apaixonadas por estrela de rock and roll nos anos 50 do século passado.

Chegadas depois de aventuras, desta vez do feliz usador para a decisão da escolha e sabe-se às vezes que sacrifícios para a compra, chega finalmente à mesa da sala e encontra pelo menos três tipos de adorador: o sereno que com toda a calma do mundo mira com olhos de amante, habituado a saborear cada momento, a caixa de cartão como oferta de deuses satisfeitos com a sua vida boa, de bondade. A seguir com o cuidado especial para não danificar templo sagrado do qual dirá sempre que ainda tem a caixa quando fala da lente que finalmente nasce do seu lindíssimo saco de plástico como placenta do bébé mais esperado do mundo. Que enlevo. Depois temos o guloso. Atira-se à caixa como puto a brinquedo que espera à séculos, rasga todas as dobras que não conseguem acompanhar a sua rapidez e, antes que a luz para que foi feita entre caixa adentro,  já está em relação apaixonada e vibrante com a máquina que a recebe em júbilo. O tecnico: com todo o cuidado, mas com a rapidez de quem faz da manipulação uma operação científica, a tampa da caixa é retirada com eficácia e sem prisão para não rasgar e é colocada de lado em sítio preciso. As tampas da lente são retiradas, todo o mecanismo é examinado para ver se não tem falhas, provávelmente uma lupa ajuda à procura de defeitos de fabrico ou pó no interior e, finalmente, verificação do encaixe na máquina. Frio, preciso e calculista.

Agora já ficaram as bases de conhecimento para entenderam a razão da minha conciliação com a minha lente 85 C. É que antes dela existiu a 85 A. De abertura 1.8. Isto é muito importante. 1.8 é a abertura de diafragma que comparado, para quem não saiba como eu não sei porque que é que um jogador de futebol é um trinco, com outra com uma abertura de 2 deixa passar mais luz pela lente. O grande problema, ou melhor, a grande maravilha é esta abertura também permitir que aquela coisa que está dentro de cada criança, e de cada um de nós que o não deixou de ser, fazer um mundo melhor, este fica à mão de semear se o fizermos passar por essa máquina do tempo e do espaço e atira com ele, como pintor com tintas em tela, para aquele quadrado ou rectângulo conforme o feitio da nossa escolha na máquina que lhe serve de cama. É, exactamente, por isto que me conciliei com a minha 85 C.

Mas antes deixem-me contar porque é acho que a explicação será esta. Já passaram muitos anos eu tenho uma memória que tem o mau hábito de ficar com o que acha que percebe do que leu, viu ou ouviu em vez da exactidão das letras agarradas umas ás outras com intervalos. Talvez por isso me fique bem a fotografia que tem o mau hábito de alterar sempre a verdade das coisas ou por limitação ou simplesmente porque gosta de baralhar. Bem, o livro chama-se o Fio da Navalha de Somerset Maugham.

É a história sobre um soldado que, acabada a guerra, ao voltar para junto dos seus onde o espera um mundo confortável e de vida garantida se põe em causa e parte para tentar descobrir o que, de facto, o liga à vida e ao mundo. Passa por bibliotecas onde todos os mistérios do mundo são depurados, onde o pensamento humano e a forma como o faz são estudados ao detalhe, exagero e contradição. Passa pelo mundo do trabalho duro e da sobrevivência diária. Passa pelo contacto com os seus semelhantes participando das suas alegrias, tristezas, frustrações e desejos. A sua demanda, tal como Siddarta Gautama a tentar descobrir a solução para todos os males do homem, não encontra resposta à angustia que o persegue. Um dia, sentado numa pedra numa encosta virada a vale, olha em frente e, pela primeira vez na vida, sentiu que entre aquilo que estava à sua frente e ele não havia diferença nenhuma. Sentia-se como parte integrante daquele espaço natural , daquele mundo como se fossem uma e uma só coisa. Há quem chame a esse estado participação mística.

Ora, nesta perspectiva, não existe fotógrafo amador, aquele que ama, que constantemente não esteja em estado de participação mística com as suas lentes, ou melhor, com o seu resultado independentemente de saber se está a ser bom julgador do que conseguiu. Não existe caçador de fios de luz que ao olhar para o resultado que a sua lente lhe permitiu não ficou como que transposto para esse resultado e esse resultado lhe entrou alma dentro. Por isso mesmo qualquer uma das minhas lentes de 85mm me transportaram para para esse estado de pessoas abençoadas pelo amor à fotografia. Durante o uso qualquer uma delas me foi dando de vez em quando, porque sempre é impossível e era sinal de estar a perder a noção das minhas capacidades, esse estado de encantamento que têm as pessoas que se entregam. Não vou contar as minhas aventuras e desventuras com cada uma delas, pode ficar para outra altura, mas sempre que foi preciso mudar, porque a vida é assim, a próxima parecia-me uma traição e os meus olhos companheiros de tantas imagens feitas acabam por ter grande dificuldade em aceitar as novidades da substituta. É que eles sempre se habituaram a ter opinião primeira antes do meu cérebro com as suas complicações, comparações, insatisfações e desejo de novidade.

Foi o que aconteceu. O meu cérebro ditador, com a vontade que os pobres olhos não conseguem rebater nem compreender, decidiu, há algum tempo, que era tempo de mudar e eles, como apaixonados por amor impossível, mantiveram-se fiéis à 85B. No entanto, dizem os antigos, o tempo tudo cura e há pouco os meus olhos conseguiram acariciar, como criança quando gosta, as fotografias conseguidas com a minha 85C com uma aceitação que deixou, finalmente, o meu cérebro satisfeito e o meu coração descansado.

Texto e Fotos: Fernando Colaço